segunda-feira, 1 de junho de 2020

Agora e falta, e toda falta sobra saudade - Por Leniclécio Miguel

Deixou para trás o portão que agora será somente lembrança. Não olhou novamente para o que deixara – a vontade de seguir e encontrar o seu próprio caminho era mais forte que o destino. O pai ao lado levando suas bagagens no único meio de transporte que tinha – um carro de mão de madeira, que era usado para transportar as macaxeiras e as batatas que ele colhia em seu roçado. Em cima, duas malas velhas, uma mochila e algumas marmitas que sua mãe caprichosamente fez para suas refeições durante a viagem. [...]

Viagem longa, tempos de pau-de-arara, de Pernambuco para o Sul era um tempo grande, coisa que não se chegava em menos de duas semanas. [...] No peito a dor da despedida, sua mãe debruçada sob a porta deixara cair uma lágrima que até pouco segurava antes dele pedir a bênção. “A bênção, minha mãe?”, “que Deus te abençoe por toda sua vida, meu filho”. Amor de mãe a gente sabe que é sempre uma mistura de dor e felicidade. Costumava dizer que filho foi feito para partir, mas mesmo assim não segurou aquele sentimento de despedida, que nem ela e nem ele sabia quando iriam se ver de novo.

Ela que desde a gestação sentira que o perdeu para o mundo, ele que desde que nasceu sentira que nasceu para conquistar o mundo. Mulher quando tem filho sofre de ausências, filho quando nasce anseia por presenças. E não é à toa que quando nascemos recebemos tantas visitas. Os holofotes estão apontados para nós, somos a estrela que acabara de nascer, mais um milagre, que de tão acontecido já se tornou comum. A vida é assim, esperam um grande acontecimento para acreditar nas coisas, mas a fé se esconde no cotidiano, no amamentar que sacia a fome, no abraçar que acalenta o frio e aconchega os órfãos de afeto [...]

Aos poucos se esfumaçam na estrada, dobram a esquina da paisagem e deixam o sítio onde moram com destino a cidade, pois somente de lá ele poderá pegar sua condução e seguir até o seu destino. Tem gente que nasce no interior, mas vive de exteriores. Gente que não vive suas raízes é cosmopolita por engano. Vão para o sul e em pouco tempo já estão falando “paulistês”, “carioquês”. Perde-se em sua essência, esquece suas origens e depois volta pro agreste como se tivesse nascido e vivido naquele lugar. Admiro gente assim, mas não sei viver sem raiz. [...] A mãe fica ali, parada em frente ao terraço, não sabe se volta –, o laço umbilical é cortado naquele instante, vivera dezoito anos criando alguém para o mundo, mesmo sem ter garantias. Mas viver é assim, a gente nasce uma vez, e se reinventa tantas outras. O começo é sempre o primeiro passo para solidão, porque quando se recomeça é sinal de insucesso, e um bom recomeço só se dá sozinho; é assim no o nascimento, é assim na vida. [...]

Na cabeça somente um desejo: Ser feliz. [...] Percorreu todo o caminho sem olhar para trás, seu pai ao lado, empurrando o carrinho, calado em um silêncio de voz, mas um grito de alma. Por dentro, todo pai é uma mãe interrompida. Homem sertanejo não chora, só lamenta não ter chovido o suficiente para ter uma boa colheita, mas de resto, é insensível por direito. Usa uma armadura de experiências e frustrações de vida, mas por dentro o coração ainda palpita aliviado: “Ainda bem que ele vai ser alguém na vida, diferente de mim que, não tive estudo e vivi minha vida sem dar conforto a ele”. Encerrou o pensamento assim que ao longe avista o caminhão; crianças correndo, mulheres e homens se organizando, motorista arrumando as bagagens, e os choros de despedida em um som de coral. Ele pensa em chorar, mas a essa hora não iria ajudar. O melhor mesmo é seguir em frente e subir. O pai dá conta de organizar a bagagem, enquanto ele sobe no pau-de-arara. Agora a vida começa, pensa ele com uma sensação de alegria, mas depois lembra de sua mãe que ficara para trás, como toda sua infância e sua raiz. E chora uma lágrima de despedida, encerra-a com o esfregar das mãos no rosto, ajeita a camisa, senta próximo da boleia, e se segura bem. Agora é partida: “_A bênção, meu pai?” “_Deus te abençoe e te acompanhe, meu filho!”. Na falta de um amor declarado, todo olhar de ternura supera a expectativa. [...]

E foi assim que o caminhão partiu; som e choro, crianças sorrindo, homens esperançosos, e seu pai voltando para o sítio pensando em como será a primeira noite sem ter o seu filho por perto, e como será a primeira manhã sem abençoar aquele que por tantos anos foi o seu companheiro de roçado, de conversa ao pé da mesa, e de tantos conselhos. Agora é falta, e toda falta sobra saudade.

Leniclécio Miguel – Professor acadêmico, empresas, comunicador social.

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